Um governo que quer acabar com o crack, mas não tem moral pra vetar comercial de cerveja


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Um jovem morre após ingerir demasiadas doses de álcool, e o que a justiça faz? Investiga os jovens que organizaram a festa que ocasionou a morte. Mais uma vez, como sempre, a justiça pega o problema pela ponta mais simples; mais uma vez – como sempre – a justiça atravessa a via mais rápida em busca de um tratamento indolor, indolor para quem? A família sente a dor da perda, os amigos sentem a dor da perda também e o peso de uma culpa que não deve e não pode recair só sobre seus ombros. Sabe quem não sente nada a respeito? A indústria do álcool.
 
por Ana Vitoria Prudente  via Guest Post para o Portal Geledés
 
Diversas festas foram canceladas após essa morte, um sinal de respeito ou de medo – respeito pelo outro, medo das consequências das próprias escolhas e das escolhas individuais de outrem, extremamente necessário nesse momento. Mas, quantos comerciais de cerveja fizeram seu ‘um minuto de silêncio’ por mais uma morte por ingestão de álcool? Quantas latas de cerveja, ou garrafas de vodca, ou litros de tequila, apresentaram nas costas de suas estruturas imagens mostrando os danos que o consumo pode causar? Ou então, quantas palestras a respeito dos perigos e malefícios do consumo desenfreado do álcool foram feitas nas escolas e universidades do país? Há algum programa que discuta o consumo de drogas – ilícitas ou não – com os jovens nos colégio e faculdades do Brasil? Você sabe como e por que uma pessoa pode morrer só através do alto consumo? A maioria das pessoas sabe apenas que é perigoso de modo genérico, sem muitos ‘como’ e sem muitos ‘porque’.
 
Álcool é uma droga lícita no Brasil, com direito a alta divulgação e publicidade no mercado. É claro que essas medidas, praticamente paternalistas, de indicar risco a tudo são extremamente perigosas. Mas, essas medidas – igualmente paternalistas – de coagir cancelamentos de festas são ainda mais perigosas, isso porque assim a culpa recai só sobre os ombros mais fracos, sem nunca gerar – sequer- o questionamento sobre quem é responsável por esse gatilho também.
 
Li muitos comentários sobre o quão idiota é participar de uma competição desse tipo (o jovem que morreu, participava de uma competição para saber quem era capaz de beber mais), mas, não li quase comentário algum sobre o quão persuasivo são as campanhas publicitárias que incentivam esse tipo de competição – de fato idiota. As campanhas publicitárias de álcool coisificam a mulher, potencializam o machismo masculino, disseminam falso estereótipos nacionais (alguém já notou que o número de negros na propaganda aumenta na época de carnaval?) e reafirmam necessidades degeneradas (do tipo: você precisa beber pra ser “cool”). Nada disso parece tão idiota quanto, senão mais? Não é absurdo que isso seja cotidiano?
 
Não tenho nada contra a bebida alcoólica em si, pelo contrário, sou uma consumidora. O que eu questiono é o modo como ela é divulgada numa sociedade machista, que busca a virilidade no próximo gole; o que me incomoda é a relação intima entre a droga e o governo em alguns casos, e a separação desonesta e dissimulada entre eles em outros.
 
Não é um tanto quanto contraditório ver que o mesmo país que não aceita o consumo e a comercialização da maconha, por conta dos riscos que ela oferece (?); é o mesmo país que não exige qualquer tipo de atitude da indústria do álcool diante dos diversos malefícios que ela causa diariamente? Não é contraditório ver a luta contra o craque, assistindo o incentivo publico ao consumo desenfreado de bebidas alcoólicas? Sejamos honestos, ninguém quer acabar com o lucro; com o caixa dois; com o glamour; tudo isso é oferecido pela indústria da droga – lícita ou não, isso também oferecido, pelo camarote da cerveja B no carnaval da Sapucaí, pelo tráfico de drogas no morro X, pelo apoio da empresa A na campanha do Senador Y….
 
Sejamos mais sinceros, a justiça só quer tirar das mãos esse problema, jogando-o nos ombros dos jovens que estavam e não estavam na festa e chamando-os de potencias culpados pela morte através de dolo eventual; pra mim, então, o dolo eventual também está nos minutos diários de propaganda ao consumo alcoólico que prega a cultura do álcool. Mas, a única droga que preocupa a população e o governo, é a maconha. E sabe por quê? Porque, sabemos muito pouco a respeito das drogas e seus efeitos, e oportunamente e levianamente ninguém quer nos informar sobre isso.
 

5/3/2015
Fonte: Geledés Instituto da Mulher Negra

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