Bairro dominado por prostituição segue rotina um ano após denúncia

Jardim Paraíso, em Rio Preto, também tem casos de tráfico de drogas.
TV TEM mostrou situação dos moradores há um ano.

Mulheres fazem prostituição em plena luz do dia (Foto: Reprodução / TV TEM)
Mulheres fazem prostituição em plena luz do dia
(Foto: Reprodução / TV TEM)

Após um ano da reportagem feita pela TV TEM sobre a situação de risco que vivem moradores do bairro Jardim Paraíso, em São José do Rio Preto (SP), por causa do tráfico de drogas, prostituição e violência, uma equipe de reportagem voltou ao local e ouviu de moradores que pouca coisa mudou de um ano para cá.


Em 2015, o poder público e as autoridades policiais se comprometeram a tomar providências para resolver esses problemas no bairro. Um ano se passou e a rotina dos moradores segue a mesma. O cenário é o mesmo que o de costume. A movimentação começa bem cedo e prostitutas e travestis se espalham pelo Jardim Paraíso.

Enquanto elas ocupam as calçadas e as casas, que são os pontos de prostituição, algumas famílias, que ainda resistem a isso tudo, se trancam em casa. Elas têm que identificar nos portões que estão fora do serviço fácil oferecido no bairro com uma placa com os dizeres ‘Casa de Família’.

Há um ano, na semana seguinte à reportagem, pelo menos 13 pessoas foram presas. Entre elas, o dono de uma boate e a gerente, suspeitos de exploração sexual. As polícias Militar e Civil fizeram ações no bairro. Fecharam ruas abordando motoristas e vistoriaram algumas casas de prostituição.
Quem estava nas casas também foi revistado.

Nos pontos de venda de drogas nenhum traficante foi preso, apenas usuários de crack foram identificados. Em outra ação, a polícia ficou no Jardim Paraíso por duas horas, tempo suficiente para acabar com a movimentação dos bares e vai e vem de prostitutas. O comando da PM disse na época que a fiscalização continuaria intensificada.

Garota de programa passa ao lado de mãe e filha no bairro (Foto: Reprodução / TV TEM)Garota de programa passa ao lado de mãe e filha
no bairro (Foto: Reprodução / TV TEM)
 
Mas, infelizmente, essas ações intensivas foram passageiras. Uma solução paliativa a um problema crônico, que existe há mais de 40 anos. Foi um alívio momentâneo.  Agora completando um ano o cenário é o mesmo: de um lado tem o tráfico, a prostituição, e de outro uma creche, e um projeto social para crianças.

Durante o caminho à escola ou de volta para casa as crianças se deparam com cenas como prostitutas e travestis e à caça de clientes. Para as mães, o desespero e um exemplo, totalmente oposto ao que prega o ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente. “Não mudou nada praticamente, todos os dias a gente vê usuários andando para cima e para baixo, as crianças ficam no projeto e não tem mudança nenhuma”, diz uma mãe, que não quer se identificar.

Em alguns quarteirões dá para contar até dez prostitutas. O delegado Raymundo Cortizo disse que as investigações de tráfico de drogas são feitas constantemente na cidade toda. Além disso, ele afirma que o grande problema do bairro é a localização.  “É muito comum nesses locais de prostituição à venda de drogas e outros crimes. O grande problema do bairro é que está numa área residencial, isso faz com que crianças e jovens tenham contato tanto com o crime sexual quanto o tráfico de drogas. A polícia tem prendido várias pessoas, mas temos a cidade toda porque a droga está em todos os cantos”, diz o delegado.

A Polícia Militar diz que as prisões por tráfico não acontecem facilmente. Isso porque a venda é feita em pequenas quantidades, como se fosse consumo próprio. Quando os policiais conseguem encontrar uma quantidade maior, é feita a prisão. “Normalmente o traficante se utiliza de cachimbo para passar informação falsa de que é usuário e a grande quantidade ele esconde em outro terreno, onde seriam necessários cães que usamos para buscar a droga”, diz o policial Emanuel Fonseca.

A venda de drogas é rápida e acontece o dia todo. A oferta é feita pelas próprias prostitutas e travestis. Elas ficam em frente as casas e locais que segundo consta, funcionam como bares e lanchonetes.

No ano passado, a prefeitura listou a situação desses locais. De 25 pontos, que funcionavam como bares, apenas dois tinham licença de funcionamento. Os comerciantes tiveram na época 60 dias para se regularizar.

Agora, um ano depois, são 32 estabelecimentos, sete a mais que no ano passado. Só quatro ainda não conseguiram alvará. Destes, 14 tem alvará de funcionamento como bar ou pensão, um tem alvará apenas de pensão. Seis tem classificação de bar, sendo que os alvarás de quatro deles passam por fiscalização.  Sete motéis tem alvará e uma boate consta como lacrada na prefeitura.

Moradores escrevem 'casa de família' nos muros para evitar problemas (Foto: Reprodução / TV TEM)Moradores escrevem casa de família nos muros para evitar problemas (Foto: Reprodução / TV TEM)
 
Um produtor da TV TEM foi até alguns desses locais. Uma casa tem alvará de bar e pensão e durante todo o dia o portão fica fechado. Quem atende o produtor explica a verdadeira atividade no local.

Produtor: Aqui é o bairro da zona né?
Homem: Aqui é
Produtor: Mas aqui também funciona?
Homem: Funciona, mas só aluga os quartos né? Mas tem bebida também.
Produtor: Mas aqui é um bar e casa de prostituição?
Homem: Isso
Produtor: Você tem muitas meninas aí? Como é que funciona?
Homem: Rapaz, de segunda-feira não tenho nenhuma, elas viajam, chegam aqui na terça, quarta-feira.
Produtor: E faz o programa aí dentro mesmo?
Homem: Isso, aluga os quartos.


Em outro local visitado pela produção tem alvará de bar e pensão. Também fica fechado durante todo o dia, mas a mulher que estava sentada em frente da casa explica o que além dos quartos, também oferece as prostitutas e informa até o preço.

Mulher: O programa é R$ 60
Produtor: R$ 60, pode vir qualquer hora?
Mulher: qualquer hora
Produtor: tem quarto aí?
Mulher: sim, cada uma tem seu quarto.


O promotor do Gaeco, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, João Santa Terra diz que os alvarás favorecem o funcionamento ilegal das casas onde há o favorecimento a prostituição.

Para o Ministério Público, o tráfico de drogas está diretamente ligado à prostituição. O promotor diz que foi feito um acordo feito com a prefeitura para intensificar a fiscalização sanitária e a fiscalização pela guarda municipal.

O pedido foi feito em dezembro e meses depois, o Ministério Público cobrou novamente. Pediu que a prefeitura indicasse de forma detalhada as ações feitas no bairro. O poder público simplesmente respondeu que intensificou as ações de fiscalização sanitária e atuação da guarda municipal. “É uma nítida a omissão da prefeitura uma vez que a segurança pública é fundamental para o cidadão e o gerenciamento é de todos. Não tenho dúvida que se houvesse fiscalização intensa administrativa, sanitária, e também urbanística não tenho dúvida que a questão criminal seria minimizada”, diz o promotor.

O promotor ainda fez outro pedido para prefeitura e sugeriu a instalação de câmeras de segurança no Jardim Paraíso. “A prefeitura ficou de analisar a situação financeira e a gente o mapeamento das ruas para ver as melhores ruas para colocar a câmera. Depois do levantamento feito a prefeitura disse que não teria verba para as câmeras”, afirma o promotor.

Sobre a questão das câmeras, a prefeitura de Rio Preto disse que a segurança é responsabilidade da polícia. Em relação à situação dos alvarás, o município informou que atua regularmente no Jardim Paraíso e disse que os fiscais da Secretaria da Fazenda vão ao bairro a cada 30 dias.

A prefeitura informou ainda que foi dado um prazo de 30 dias para que os quatro estabelecimentos com alvará de funcionamento de bar se regularizarem. Se isso não for feito, eles serão lacrados.

Prostituição continua no bairro Jardim Paraíso em Rio Preto  (Foto: Reprodução / TV TEM)Prostituição continua no bairro Jardim Paraíso em Rio Preto (Foto: Reprodução / TV TEM)

 

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