A vida das trabalhadoras sexuais na maior favela do mundo

Kahfee, de 41 anos, trabalha como prostituta desde os 19. Ela não faz ideia de quem são os pais de seus filhos. Foto: Edu Martins/ VICE Brasil
 
Kibera, que você já viu no filme O Jardineiro Fiel, é um imenso pedaço de terra sem saneamento e outros direitos básicos que, mesmo assim, reúne gente que espalha por 15 grandes comunidades em Nairóbi, a capital do Quênia. Ocupada por soldados núbios na década de 1910, Kibera significa "floresta" – o que de fato era antes de se tornar, ao longo de um século, na maior favela do mundo.
 
Hoje, estima-se, mais de um milhão de pessoas, um quinto de toda população do Quênia, vivem em Kibera. A alegria e a hospitalidade do povo contrapõe-se à realidade da região. Grande parte encontra-se em situação de pobreza extrema, vivendo com menos de $1 por dia.
 
No cotidiano, os moradores convivem com surtos permanentes de diarreia, doenças sexualmente transmissíveis e volumosos casos de agressão e estupro, além de escasso acesso à água tratada e encanada, energia elétrica e serviço médico. No campo da educação, raras são as famílias que conseguem bancar os estudos dos filhos nas poucas escolas da comunidade.
 
Shonda, 21 anos, trabalha como prostituta desde os 15. Nairobi, Kenya. Foto: Edu Martins/ VICE Brasil
 
Diante das altas taxas de desemprego, as pessoas se viram como podem. Vendem comida. Catam lixo. Plantam e comercializam verduras. No vácuo de assistência deixado pelo governo, a luta pela sobrevivência representou um campo fértil para as indústrias da drogas e do sexo.
"O papel da prostituição é enorme em Kibera e envolve a maioria das mulheres de 15 a 30 anos", observa Eduardo Martins, fotógrafo documental e humanitário das Nações Unidas. "Elas precisam comer e, muitas vezes, sustentar suas casas. Infelizmente, essa é a forma mais rápida para isso."
 
Shantal, 18 anos, trabalha como prostituta há 6 meses. Começou a se prostituir para ajudar a sustentar a família de quatro irmão e uma mãe solteira com HIV. Nairobi, Kenya. Foto: Edu Martins/ VICE Brasil
 
Neste inverno, o paulistano esteva no Quênia, para trabalhar em Dadaab, o terceiro campo de refugiados mais populoso do mundo. Porém, recebeu a notícia de que o refúgio, aberto desde 1991, encerraria as atividades dentro de um ano. Uma sequência de ataques do grupo terrorista Al-Shabaab ameaçava a segurança do país, argumentou o governo queniano.
 
Com isso, Eduardo ajudou a ONU a encaminhar parte dos 330 mil abrigados – 95% provenientes da vizinha Somália – a outros campos nos arredores do Chifre da África. Após o árduo trabalho, realizou um desejo que tinha a alguns anos: conhecer e fotografar o dia a dia na favela de Kibera.

 
Vaughnita, 24 anos, trabalha como prostituta desde os 19, ela tem um filho."Goste disso ou não, essa é a única forma de sobreviver". Nairobi, Kenya. Foto: Edu Martins/ VICE Brasil

A prostituição como eixo econômico da comunidade foi o que mais chocou o fotógrafo paulistano. Ele entrou neste universo ao conhecer Nabinye, uma mulher de 25 anos que faz programas desde os 21. Logo, ela contou que já foi violentada duas vezes por clientes, mas continuar na profissão é sua única opção. Nabinye, em seguida, o apresentou a outras mulheres.
 
Shonda, 21, possui uma vida dupla característica de muitas jovens de Kibera. Durante o dia, vai para a escola. À noite, anda pelas ruas, à procura de clientes. Normalmente, Shonda faz cinco programas por noite.

Já L'aneba, 24, começou a fazer programas depois de ser violentada pelo seu chefe. Foto: Edu Martins/VICE Brasil

Já L'aneba, 24, começou a fazer programas após ser assediada pelo seu chefe, em um mercado de frutas na comunidade. "Depois que ele me violentou, perdi tudo – minha dignidade e minha vontade de viver", ela contou a Eduardo. "Me perdi e não sei mais quem sou. Ele me destruiu e, a partir desse momento, me envolvi com a prostituição."
 
A história que mais impressionou o fotógrafo, entretanto, foi a de Kahfee. A queniana de 41 anos trabalha como prostituta desde os 19. Já foi violentada por clientes três vezes. Teve filhos de outros dois, mas não faz ideia de quem são os pais.
 
Três anos atrás, Kahfee descobriu que contraiu HIV. As crianças, por outro lado, testaram negativo. E mesmo como portadora do vírus, Kahfee continua no ofício. "Ao fazer uma relação", conta Eduardo, "ela avisa ao cliente sobre a doença e, mesmo assim, eles topam."
 
No Quênia, país com 41 milhões de habitantes, dos quais mais de um milhão e meio de pessoas ão portadoras do vírus HIV, a prostituição é considerada ilegal o que acaba gerando ainda mais violência contra as prostitutas que tem na polícia local o seu pior inimigo.

Fonte: http://www.vice.com/pt_br/read/prostituicao-kibera-quenia

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